Fonte: NatureNews
A mais avançada simulação mundial quanto a situações climáticas extremas em um cenário de aquecimento terrestre completou seu primeiro cômputo em 5 de dezembro. Greg Holland, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR) dos Estados Unidos, em Boulder, Colorado, está liderando o projeto, que acomoda modelos regionais detalhados a um modelo mais amplo de clima mundial computando as alterações que devem ocorrer até a metade do século 21. Sob o microscópio do modelo estão as futuras estações de tempestades no Golfo do México e no Caribe, bem como a precipitação chuvosa na região das Montanhas Rochosas e os padrões dos ventos na Grande Planície norte-americana.
P. O que os cientistas sabem sobre a maneira pela qual as alterações climáticas afetarão os furacões, e o que existe de controvertido ou incerto sobre isso, até o momento?
R. Praticamente tudo é incerto. Bem, nada de "praticamente". Tudo é incerto. Algumas coisas estão começando a se destacar por sobre o ruído de fundo, e uma delas é que, com o aquecimento global, devemos esperar uma intensificação das chuvas e de sua freqüência. As controvérsias giram em torno dos números, da incidência e dos locais a serem atingidos.
Desde 1995, tivemos incidência bem superior à norma anterior para os furacões, no Atlântico Norte, durante 13 anos ininterruptos. A temporada de 2008 teve até o momento 16 tempestades e oito furacões fortes a ponto de serem batizados. Isso corresponde exatamente à média dos últimos 13 anos. Mas se recuarmos a um período de 30 anos, a média cai para nove tempestades tropicais e cinco furacões. Ou seja, estamos operando com cerca de o dobro da incidência e o dobro da intensidade para as tempestades, ante a média histórica. É claro que estamos seguros de que uma parcela dessa mudança se deve à variabilidade natural do clima, mas acredito firmemente que existe um forte sinal relacionado ao aquecimento global e aos gases do efeito-estufa, nessa tendência. E isso gera controvérsias.
Por fim, sentimos grande incerteza quanto à maneira pela qual os detalhes da atmosfera tropical se reordenarão. Esse é o motivo para que tenhamos decidido conduzir o estudo.
P. Fale-me sobre as simulações que o senhor conduz utilizando o supercomputador Bluefire instalado no NCAR. Que novos resultados elas oferecerão?
R. Temos o modelo do clima em prazo mais longo e o do clima em prazo curto, no NCAR, e nós os combinamos. O modelo quanto ao clima mundial de longo prazo alimenta de dados o modelo sobre o clima de curto prazo. Estamos rodando modelos climáticos de baixa resolução para todo o mundo no período 1950-2060, utilizando cenários diferentes quanto à presença dos gases causadores do efeito-estufa. Mas também concentramos nossa atenção em algumas áreas específicas - Atlântico Norte, América do Norte e África - com modelos na resolução de que realmente precisamos, para os períodos 1995/2005, 2020/30 e 2045/55. Estamos conduzindo simulações regionais com áreas de 36 quilômetros e alguns modelos com uma resolução de 12 quilômetros, a mais elevada já atingida em modelos climáticos.
Os modelos climáticos de longo prazo se concentram bastante nos efeitos que acontecem em prazo mais extenso, como as mudanças que o oceano sofre em ritmo de décadas. Isso interessa pouco para a meteorologia. Esse tipo de coisa nunca muda em um horizonte de duas semanas, e por isso o especialista em previsões meteorológicas mal pensa nelas.
Não vou prever a passagem de uma tempestade pelo Estado de Nova York em 2050. Mas o que desejamos ser capazes de fazer é perguntar "quais são as estatísticas sobre as tempestades na área de Nova York em 2050?", ou "quais são as estatísticas sobre a ação de furacões na região de Miami em 2050?" Também vamos trabalhar com certa margem de incerteza para todos esses cálculos, e essa é a primeira vez que alguém pôde considerar realizar esse tipo de trabalho.
P. Como serão utilizados os resultados?
R. Atualmente, da maneira pela qual funciona o nosso planejamento - no governo, na sociedade e nas empresas -, são utilizados registros históricos sobre furacões aos quais se aplica técnicas estatísticas avançadas a fim de descobrir o que poderia acontecer no futuro. O processo é conhecido como modelagem de catástrofes. E essa é uma técnica extremamente boa; o problema é que, se o clima atual não for representativo do clima futuro, não há chance de acerto.
Podemos oferecer informações a planejadores locais, a pessoas que estão construindo plataformas marítimas de petróleo, a pessoas que estão definindo as taxas de seguros. Publicaremos estudos o tempo todo - e isso dá credibilidade ao programa. Mas o conteúdo de um estudo científico não é aquilo de que você precisa, se você for o governador da Flórida. São necessárias informações específicas, e podemos começar a fornecê-las, agora.
P. Que mudanças nos furacões o senhor está começando a perceber em seus modelos? Quem está em perigo?
R. Não tenho muita informação a oferecer. Nós conduzimos análises em volume suficiente para garantir que os modelos funcionam na prática. Mas deliberadamente não começamos a analisar os detalhes do processo até que o cômputo inicial tenha sido completado. Neste estágio, minha impressão - e não passa de impressão - é a de que o Atlântico provavelmente enfrentará menos ciclones, mas os que surgirem podem se tornar mais intensos. Em março ou abril, porém, teremos números muito mais explícitos.
P. De que maneira a pesquisa se desenvolverá, daqui por diante?
R. O processo que foi iniciado agora e levaremos cinco a 10 anos a desenvolver é um novo modelo que combinará o clima de longo prazo e o clima de curto prazo em um conjunto integrado. O modelo terá entre um milhão e dois milhões de linhas de código. Ele está sendo criado do zero, com unidades básicas de construção. Isso permitirá projeções sobre o clima mundial com extensão de séculos. Também nos permitirá projetar as tendências do clima de curto prazo na escala de 30 ou 40 décadas, e prever o tempo de amanhã ou da semana que vem. Um sistema único será capaz de tudo isso.
Tradução: Paulo Migliacci
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